O papel social do design na modernidade líquida

A palavra “líquida” é a metáfora mais adequada para representar o momento atual. Afinal, tudo que é sólido se desmancha, bem disse Marx. Assim também acontece com a modernidade. A geração atual passa por uma situação de mudanças rápidas e inevitáveis. Nesta modernidade, chamada de líquida, o tempo se tornou a arma na conquista do espaço. Hoje, o poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico, de forma instantânea. Segundo Bauman, o poder tornou-se, realmente, extraterritorial, não mais limitado ou desacelerado pela resistência do espaço, fazendo desaparecer a noção de “próximo” e “distante”, como uma ordem dada pelo celular: a presença física não é mais essencial, e a proximidade pode existir, de certa forma, mesmo à distância. Isso significa que as pessoas que exercem o poder não precisam mais estar presentes para se fazerem ouvir. Trata-se de um poder cada vez mais móvel, escorregadio, evasivo e fugitivo. Tudo isso faz com que o menor, o mais leve, o mais portátil, seja o melhor e represente o progresso, em uma sociedade em que os laços são feitos de líquidos que se desfazem a cada momento, sem criar forma sólida e, muito menos, raízes.

 

 

Dentro da modernidade líquida está presente o consumo e sua evolução na sociedade: de produtores estruturados na segurança e estabilidade para uma sociedade consumista, instável e líquida, em que o ambiente existencial se transformou em sociedade de consumidores. É uma verdadeira passagem do consumo para o consumismo, tendo, com isso, a sociedade de consumidores como a maior mantenedora desse atributo. Segundo Huxley, “a ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.

Consumir é o que dá sentido à sociedade contemporânea, nessa ânsia eterna por rapidez e quantidade. E eis aqui o desafio do designer de hoje, inserido nesta sociedade líquido-moderna e de desejos efêmeros: projetar e pensar produtos de desejos reais. Nesta sociedade de realizações instantâneas e de felicidade consumidora, o designer possui um papel divisório e fundamental.

 

 

Frente a essas perspectivas, o design social se destaca, já que busca desviar o foco do produto, da elite econômica e do consumismo, e ater-se ao desenvolvimento social, à sustentabilidade, à coletividade e ao bem comum, criando mudanças positivas. Existe algo em torno do design, assim como da arte, que quer o transformar em algo inacessível. Porém o design, por natureza, surge na contramão dessa visão meramente consumista e líquida. Os designers possuem responsabilidade social e são capazes de causar uma mudança real no mundo através do design bom e responsável, podendo contribuir com o desenvolvimento de produtos mais ecológicos, selecionando cuidadosamente os materiais utilizados.

 

 

Assim, a modernidade líquida pode ser encarada pelo designer como um grande e atual desafio, pensando em soluções para pessoas que, muitas vezes, não possuem consciência de suas necessidades. Ou, ainda, que possuem consciência mas que não possuem oportunidades para que seus problemas sejam solucionados. O design, aliado à responsabilidade social, pode trazer ao mundo coisas boas e fundamentais, sendo acessível, útil e, quem sabe, educativo, em uma sociedade em que muitos se encontram perdidos em vontades e desejos simbólicos.

 

Aline Jorge é cofundadora do estúdio de design Vermelho Panda.

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