Mulheres no design gráfico: uma discussão necessária

Há alguns meses houve uma discussão em um grupo social da internet em que um publicitário questionava a suposta presença “fraca” de mulheres no design gráfico e em meios criativos. O comentário dele, preconceituoso e misógino, foi mais uma pedra no teto de vidro chamado mulheres no design gráfico.

Existem alguns livros e projetos pelo mundo que buscam dar maior visibilidade às designers “invisíveis” e à igualdade de gênero, buscando com isso incluir mais nomes de mulheres designers no campo da educação dentro de instituições de design. Elas existem e possuem um papel fundamental, desde que o design gráfico surgiu, mas muitas vezes continuam nos bastidores.

Desigualdades de gênero ainda existem no design gráfico, tanto quanto em outras áreas profissionais. Isso é um fato. Em agências de publicidade, local em que muitas designers estão inseridas, a desigualdade, infelizmente, é real e antiga. Desde assédios sexuais, vindos de colegas de trabalho e de chefes, ou o famoso “manterrupting”, tão comum em reuniões e brainstormings, em que mulheres não conseguem concluir suas frases por serem constantemente interrompidas por seus colegas homens. E a lista continua: desigualdade salarial, apropriações de ideias e rebaixamento para funções consideradas “apropriadas” para mulheres. Mulheres diretoras de arte ou de criação são raridade.

No campo do design gráfico as pessoas costumam dizer que não existem desigualdades de gênero, mas basta olhar os coordenadores de cursos de design nas faculdades, ou mesmo os designers presentes na linha de frente de eventos, para ver que não é bem assim.

Essa é uma questão alarmante e que vem sido recentemente discutida por designers pelo mundo. O fato é que, nas faculdades de design, a grande maioria dos acadêmicos e professores ainda são mulheres. Mas quando estudamos a história do design na faculdade, elas representam uma porcentagem muito pequena (isso quando são citadas).

Em 2011, a designer italiana Astrid Stavro escreveu um artigo intitulado “Beyond the glass ceiling: an open discussion” (em tradução livre: Além do teto de vidro, uma discussão aberta), em que levanta esse questionamento: afinal, por que há poucas mulheres conhecidas no design?

Em seu artigo, Astrid perguntou à designer Paula Scher, sócia de um dos maiores escritórios de design do mundo, por que o sucesso das mulheres não é tão celebrado quanto o sucesso dos homens. E Paula afirmou que “há muitas mulheres designers de sucesso. Não confunda sucesso com fama. Os designers ficam famosos falando em conferências. E a maioria das mulheres tem filhos e acabam não tendo tempo para isso. Recentemente, algumas mulheres designers, cujos filhos já estão crescidos, tiveram tempo para palestrar em conferências e, como resultado, ficaram mais famosas. A maioria dos homens são palestrantes em conferências porque possuem esposas que ficam em casa com as crianças. Isso é como eles ficam famosos.” Apenas um detalhe: o escritório em que Paula Scher é sócia possui 21 sócios, e apenas 4 são mulheres.  

Se organizadores de eventos buscarem novas vozes relevantes, se a educação procurar listar e trabalhar nomes de mulheres na história e na construção do design brasileiro e mundial, se professores propuserem discussões e trabalhos de representação e gênero dentro dos cursos de design, então a história será construída de forma mais responsável e inclusiva.

E isso é apenas o começo: ainda temos muito caminho pela frente, mas, felizmente, a comunicação visual (área que engloba o design) é uma das formas mais poderosas de expressão. Então estamos no caminho certo, e força é o que não nos falta.

Aline Jorge é cofundadora do estúdio de design Vermelho Panda.

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