A (des)ordem encontrada no vazio

“Horror vacui” é uma expressão latina que significa “medo do vazio” e retrata uma tendência a preferir preencher espaços em branco com elementos, detalhes e objetos. O termo é antigo, usado na física desde à epoca de Aristóteles, e utilizado dentro do design e das artes visuais para definir o estilo oposto ao minimalismo, como a atmosfera e desordem sufocante do design de interiores do período vitoriano ou os espaços meticulosamente preenchidos nos arabescos. Ou ainda, como os manuscritos medievais cujas ilustrações e textos se mesclavam e se apertavam, mas com motivo justo: o material (papel ou pergaminho) era caro e escasso, e a economia era prioridade. Todos esses são exemplos tradicionais de horror ao vácuo.

7 - Cotidiano (Aline) - Mrs Leoni's Parlor 1894— part of a series of NYC interiors by Byron

Esse estilo, que deixa pouco (ou nenhum) espaço em branco, é também amplamente utilizado na publicidade e em vitrines de lojas. Pesquisas recentes sugerem uma associação forte entre o horror ao vácuo e a percepção de valor: quando o horror ao vácuo aumenta, a percepção de valor diminui. Um bom exemplo são as empresas que vendem produtos de alta qualidade: na maioria das vezes suas vitrines apresentam poucas peças expostas, seu design é minimalista e sua publicidade é limpa e com poucas informações. O horror ao vácuo funciona, muitas vezes, como um tipo de “medidor”: se a pessoa sente-se confortável em um espaço minimalista, ou apreciando um livro que possua muitos espaços negativos, ela possui um grau mais elevado de refinamento ou educação, e vice-versa. Afinal, esses espaços “em branco” são intencionalmente pensados e projetados por designers, artistas e arquitetos que, tendo objetivos e intenções muito claras do que desejam transmitir, permitem que hajam esses espaços de arejamento visual e, porque não, mental.

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Talvez seja justamente por vivermos em uma sociedade poluída, visualmente ou sinestesicamente, que o medo do vazio tenha se tornado uma tendência tão naturalizada: as pessoas se sentem tremendamente incomodadas quando ficam em contato com ambientes ou editoriais que possuam espaços vazios. Nesses casos, a vontade é de querer preencher os espaços com objetos, informações ou elementos, já que o sentimento é de que alguma coisa está faltando. Mas observe que em museus ou livros de arte, as peças não costumam ficar aglomeradas como se estivessemos em uma loja de departamentos. Quanto mais espaço existe ao redor de um objeto, mais intencionalmente pede-se que a atenção se volte apenas a ele e ao que ele transmite.

Porém, curiosamente, o vácuo também pode ser encarado como um ponto de partida para a criação: muitas vezes o vazio nos obriga a preencher a tela ou a folha em branco, dando-nos a função de criador. Cabe então a nós preenchermos esses espaços, seja com divagações, pensamentos, insights, inspirações, ou novos conhecimentos. Apesar dessa área de pesquisa ainda ser muito recente, necessitando de mais estudos para a consistência das causas dessas percepções de valor versus horror ao vácuo, ela também é uma porta de conhecimento interessante e essencial para que se compreenda o comportamento humano e como nós lidamos com os espaços que ventilam nossa mente e nos fazem pensar.

Aline Jorge é cofundadora do estúdio de design Vermelho Panda.

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